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Demanda Contratada: O Que É e Quando Importa na Conta de Energia

Entenda o conceito de demanda contratada, quem paga e como dimensionar. Guia para consumidores média tensão e comerciais.

Por Equipe SimulaConta

A demanda contratada é um conceito que a maioria dos consumidores residenciais nunca precisa entender — mas para quem tem um comércio, uma indústria pequena ou até uma casa grande com instalação em média tensão, ela pode representar 30-50% da conta. Este artigo explica o que é, quem paga, e como evitar os erros mais comuns no dimensionamento.

O que é demanda contratada

A demanda é a potência máxima (em kW) que sua instalação puxa da rede num dado momento. Diferente do consumo (em kWh), que mede o total de energia usada ao longo do mês, a demanda mede o “pico” instantâneo.

Consumidores do Grupo A (média e alta tensão) contratam com a distribuidora uma demanda máxima garantida, chamada demanda contratada. A distribuidora cobra por essa demanda mesmo que o consumidor não a utilize totalmente — é uma tarifa fixa de reserva de capacidade.

Consumidores do Grupo B (baixa tensão, residencial e pequeno comércio) não têm demanda contratada. Pagam apenas pelo consumo em kWh e uma tarifa mínima de disponibilidade.

Quem paga demanda contratada

A contratação por demanda é obrigatória para clientes em média tensão (2,3 kV a 25 kV) e alta tensão (acima de 25 kV). Tipicamente:

  • Indústrias pequenas, médias e grandes
  • Shoppings e supermercados
  • Hospitais e escolas grandes
  • Condomínios residenciais de grande porte (com transformador próprio)
  • Prédios comerciais
  • Postos de gasolina com muitos equipamentos
  • Frigoríficos, câmaras frias, armazéns refrigerados

Alguns grandes clientes residenciais também migram para média tensão quando o consumo supera 2.500-3.000 kWh/mês, justificando o transformador próprio pelo benefício tarifário do Grupo A.

Como funciona a cobrança

A conta de um cliente Grupo A tem tipicamente 3 componentes principais:

1. Demanda contratada. Cobrada mensalmente em R$/kW, independente do uso real. Exemplo: 100 kW contratados × R$ 35/kW = R$ 3.500/mês fixos.

2. Consumo. Cobrado em R$/MWh (ou R$/kWh), conforme o uso real.

3. Ultrapassagem de demanda. Se em qualquer momento do mês a demanda medida ultrapassar a contratada, há cobrança adicional (geralmente 2× o valor normal por cada kW excedente).

O problema da ultrapassagem

A cobrança de ultrapassagem é pesada. Se você contratou 100 kW e em um momento do mês puxou 120 kW (talvez por ligar vários equipamentos simultaneamente), paga:

  • Demanda normal: 100 kW × R$ 35 = R$ 3.500
  • Ultrapassagem: 20 kW × R$ 70 (2×) = R$ 1.400
  • Total: R$ 4.900 só na componente de demanda

Pior: a ultrapassagem pode comprometer o contrato por vários meses, exigindo renegociação da demanda contratada para um valor maior (o que aumenta custo fixo permanente).

O problema do subuso

Por outro lado, contratar demanda muito acima do necessário é desperdício. Se você contratou 150 kW mas nunca usou mais de 80 kW, está pagando R$ 2.450/mês (50 kW × R$ 35 × 1,4) extra por reserva que não utiliza. Em 12 meses: R$ 29.400 jogados fora.

A tolerância histórica da ANEEL sobre subuso era 5% (pagamento pela totalidade da demanda contratada até 5% de sobra). Hoje, consumidores podem ajustar a demanda ao longo do contrato com regras específicas.

Como dimensionar corretamente

O dimensionamento ideal é próximo ao pico real de uso, com pequena margem de segurança:

Passo 1: levantar a curva de demanda real. Se o cliente já tem histórico, a distribuidora fornece o maior pico de demanda por mês. Se não tem, é preciso fazer uma medição inicial ou estimar pelo cadastro de cargas.

Passo 2: identificar o maior pico ao longo de 12 meses. A contratação deve ser igual ou ligeiramente superior a esse pico.

Passo 3: adicionar margem de 5-10%. Para acomodar variações sazonais e eventuais picos curtos.

Passo 4: contratar nesse patamar. Evite arredondar muito para cima.

Exemplo prático: supermercado de porte médio com medições que mostram picos mensais variando de 95 a 140 kW ao longo de 12 meses. O maior pico foi 140 kW. Contratação recomendada: 150 kW (margem de 7%).

Demandas de ponta e fora de ponta

Consumidores do Grupo A também tem separação por horário:

Horário de ponta: tipicamente 18h às 21h (varia por concessionária). Tarifa de demanda mais alta. Alguns contratos têm demanda contratada exclusiva para ponta.

Horário fora de ponta: demais horas do dia. Tarifa de demanda menor.

O cliente pode contratar a demanda em valores diferentes para cada período. Por exemplo: 150 kW fora de ponta e 100 kW ponta, deslocando operações pesadas para fora do horário de ponta.

A modalidade tarifa horária azul diferencia demanda ponta/fora. A tarifa horária verde tem demanda única, mas tarifas de consumo diferentes por horário.

Estratégias para reduzir a conta

1. Deslocar cargas para fora do horário de ponta. Uma indústria que usa câmaras frigoríficas pode aumentar o resfriamento antes das 18h e deixar os compressores mais lentos durante o horário de ponta.

2. Escalonar partida de motores. Se a planta tem 5 motores de 20 kW cada, ligar todos simultaneamente puxa 100 kW de pico (mais o fator de partida). Escalonar a partida reduz o pico a 20-30 kW.

3. Instalar banco de capacitores. Corrige fator de potência e reduz a demanda aparente sem reduzir a ativa.

4. Gerenciamento ativo de demanda. Sistemas que monitoram a demanda em tempo real e desligam cargas não-críticas antes de ultrapassar o contratado. Custa R$ 15.000-40.000 para implementar, mas paga em 12-24 meses em instalações grandes.

5. Revisão de contrato regular. Se o negócio cresceu ou encolheu, renegociar a demanda evita pagar por sobra ou tomar ultrapassagem crônica.

Quando migrar para média tensão

Consumidores residenciais ou comerciais com contas mensais acima de R$ 3.000-5.000/mês devem considerar migração para o Grupo A. Os custos de migração envolvem:

  • Transformador próprio: R$ 15.000-40.000
  • Cabine primária e proteção: R$ 20.000-50.000
  • Projeto e aprovação pela distribuidora: R$ 5.000-15.000
  • Ligação da rede média tensão: variável

O payback da migração depende da diferença tarifária e do consumo. Para clientes com consumo acima de 10.000 kWh/mês, frequentemente o payback fica entre 18 e 36 meses.

Conclusão

Demanda contratada é um conceito que parece técnico mas tem impacto financeiro direto em negócios e residências grandes. Dimensionar corretamente, revisar periodicamente, e considerar estratégias de gerenciamento ativo pode gerar economia significativa — ou evitar desperdício silencioso com demanda mal contratada.

A calculadora de demanda do SimulaConta permite estimar o pico de demanda da sua instalação a partir do cadastro de cargas, ajudando a escolher uma contratação coerente com o uso real.

Para contratação oficial de demanda, sempre consulte a distribuidora local e um engenheiro eletricista credenciado.